11 ago
2016

Como tratar a birra com Disciplina Positiva

Birra, chilique e ataque de raiva são comuns em crianças, principalmente nas menores já que ainda não possuem capacidade para lidar com a frustração, bem como capacidade cognitiva para se acalmarem sozinhas.

Além disso, as birras podem ser entendidas como uma forma de comunicação/expressão de sentimentos e devem ser olhadas não como um problema, e sim como algo à ser desconstruído e entendido em sua causa.

Pra mim, o segredo para passar “tranquilamente” por esses momentos (que sem dúvida podem ser muito estressantes para todos os envolvidos) é estar calmo, consciente das limitações da criança, bem como ter empatia pelo momento e ser capaz de acolhe-la. O acolhimento gera conforto e promove sua segurança, estando segura a tendência é que o acesso de raiva passe.

Antes de começar a falar como tenho vivenciado isso na prática, é importante deixar claro as idéias nas quais acredito e me baseio! Assim, será mais fácil entender o porque tomamos algumas atitudes e somos contra outras.

Em primeiro lugar, preciso esclarecer que não acreditamos em disciplina punitiva, principalmente a física. Apesar de muitos pais ainda repetirem o modelo pelo qual foram educados, não acreditamos na eficácia do “bater” e entendemos que dessa forma apenas influenciaríamos e ensinaríamos o Gabriel a fazer o mesmo – ou seja, reagir e punir através da agressão. Além disso, a disciplina punitiva reforça o que foi feito de errado fazendo com que a criança perceba que o comportamento ruim chama mais atenção dos adultos do que o bom comportamento (que muitas vezes são tratados como “nada além da obrigação”).

Crianças são como “esponjas”, absorvem tudo o que está a sua volta e refletem em seus comportamentos o que foi aprendido. Assim, existem diversas outras formas de educar através do exemplo, do reforço positivo, da conversa… através da famosa Disciplina Positiva!

Primeiro alguns conceitos sobre Criação com Apego

Para mim, mais do que uma metologia com passos a serem seguidos, criar com apego é um estilo de vida! Relatei exatamente isso na matéria que fiz para uma revista sobre como a Criação com Apego entrou em nossas vidas (leia aqui).

Basicamente a Criação com Apego promove o fortalecimento do vínculo emocional entre pais e filhos. Após muitos anos de estudos nas áreas de psicologia e desenvolvimento infantil, constatou-se que as crianças percebem suas relações com seus pais através do contato físico, de suas necessidades atendidas, do amor, respeito e afeto. A partir disso, podem estabelecer um apego seguro emocional ou inseguro.

Crianças que estabelecem apego seguro com seus pais são mais resilientes, respondem melhor às adversidades e se relacionam melhor com as outras pessoas. Enquanto isso, as crianças que desenvolvem apego inseguro em suas relações parentais estão propensos à depressão, situações de ansiedade, são menos resilientes e inseguros em suas relações com o mundo.

Não me aprofundarei em todas as premissas da Criação com Apego pois o assunto é rico, complexo, e merece um post só pra ele! Certamente logo estará por aqui já que amo falar sobre isso! Mas se não aguentar de curiosidade e quiser ler um pouco mais sobre, clique aqui.

A única premissa que falarei nesse momento será sobre a educação através da prática da Disciplina Positiva.

Mas afinal, o que é Disciplina Positiva?

Segundo a API (Attachment Parenting):

“Disciplina positiva é uma filosofia abrangente, que ajuda uma criança a desenvolver uma consciência guiada por sua própria disciplina e compaixão em relação aos outros. A disciplina que é empática, amorosa e respeitosa fortalece a conexão entre os pais e seus filhos, enquanto que a disciplina dura ou que abusa na punição enfraquece esta conexão. Lembre-se que o objetivo final é ajudar a criança a desenvolver o autocontrole e a autodisciplina.”

Confesso que na teoria a Disciplina Positiva é bem mais fácil do que na prática! Ainda mais para nós que vivenciamos uma forma de disciplina mais dura, que era comum antigamente. Aplicar essa abordagem mais gentil requer prática (e depois de um tempo entra no automático), consciência e informação, paciência e muita crença de que é o correto a se fazer.

Vale lembrar que o cérebro da criança está em formação, assim, a parte responsável pelo controle dos impulsos emocionais só estará completamente formada por volta dos 4 anos. Ou seja, ataques de birras, gritos, tapas e arremessos são esperados e considerados “comuns” para crianças entre 2-3 anos ou menos.

Ok, mas como colocar em prática?

Mais fácil do que tentar explicar na teoria é dar exemplos de como colocá-la em prática e dicas de como evitar a crise.

Assim, reuni abaixo algumas situações pelas quais passamos e analisei do ponto de vista da Disciplina Positiva.

1. Deixe que ele participe do momento, tenha autonomia e faça escolhas viáveis

Toda refeição do Gabriel é acompanhada de um suco ou água. É sempre assim desde que fizemos a IA para a comida da casa (leia aqui). Tem dias que ofereço o suco natural de uma fruta, dias em que ofereço água de coco e dias em que ofereço água mineral. Acontece que “de longe” a água de coco é preferida por aqui e, pensando em variar a oferta, passamos a comprar menos.
O primeiro almoço que ofereci suco de laranja ao invés do “queridinho” ele recusou de cara, sem ao menos experimentar. Pediu pela água de coco e expliquei que essa não era uma opção. Ele insistiu várias vezes, eu expliquei novamente e lhe dei três opções: suco de laranja, água mineral ou não tomar nada. Ele optou pela água mineral. Fim da questão!

Eu poderia ter tomado duas atitudes diferentes: ter cedido pela água de coco ou ter insistido no suco de laranja. Ao invés disso, deixei que ele participasse do momento e pudesse escolher entre duas opções viáveis. Ele fez a escolha dele, sua autonomia foi reforçada, sua auto estima também e eu consegui organizar o ambiente de forma que chegássemos ao “sim”.

Esse mesmo exemplo pode ser aplicado para situações de escolha de roupa, sapatos, brinquedos, etc. Basta pensar, analisar as possibilidades e aplicar as variáveis. Aprendi com o pouco tempo que tenho de maternidade que as vezes temos que escolher nossas batalhas, ou seja, eu realmente poderia ter insistido no suco que ele não queria, ele poderia ter se esgoelado de tanto chorar e por fim até poderia ter bebido, mas pra que? porque? seria mesmo necessário? As vezes vale a análise da situação e da nossa postura diante da real necessidade.

2. Aprenda a tirar o foco e a tornar momentos estressantes em momentos divertidos

Nem sempre foi fácil escovar os dentes do Gabriel. Sinceramente até hoje ele é “de lua”, deixando alguns dias sem grandes chiliques e dificultando ao máximo em outros dias. Porém, sabemos que deixar de escovar os dentes não é uma alternativa viável, não é? Assim, tento deixar esse momento mais engraçado e inusitado possível. Canto música, brinco de “bafo de jiboia”, faço caretas, finjo que espirrou pasta em mim…enfim…uso minha criatividade para concluir com sucesso minha missão sem muito stress.

Dizer que estou sempre disposta seria uma mentira de perna curta….principalmente na TPM, rs… mas nesse dia peço ajuda e tento manter em mente que ele é só uma criança, que ainda não possui maturidade e coordenação para fazer a atividade sozinho, e que convenhamos, nem eu mesma gosto de ir ao dentista e ficar de boca aberta, em posição super vulnerável – se colocar no lugar do outro é sempre uma opção válida para fazer um exercício de empatia.

Além de escovar os dentes, esse exemplo pode ser aplicado em viagens e passeios em que a criança não aceita ficar presa no cinto de segurança, para dar as mãos ao atravessar a rua e demais situações em que não há muito o que se fazer.

3. Aprenda a escutar de forma empática e a respeitar o seu filho

Apesar de não ser super frequente, existem dias em que o Gabriel pula alguma refeição. Seja o lanche da manhã, o lanche da tarde, ou até mesmo o jantar, diz que não quer comer e volta a brincar. Na primeira vez fiquei preocupada de que ele passasse fome e ofereci algo “fora do cardápio”. Depois aprendi a escutá-lo e a respeitá-lo. Se não está com fome, ok! Explico que a mesma comida será oferecida quando a fome voltar e que ele não comerá nenhuma besteira entre as refeições. Se no meio do caminho ele reclama de fome, pontuo sobre não ter comido no horário (apenas relembrando) e ofereço a comida novamente. Caso esteja perto ao horário da próxima refeição então faço a nova oferta.

Um dos calcanhares de aquiles dos pais sem dúvida é a alimentação dos pequenos. Mães perdem seus cabelos e entram em pânico quando seus filhos rejeitam uma comida, pulam a refeição e dizem não estar com fome ou satisfeitos.

Ao contrário de nós adultos que somos movidos à ansiedade e por isso muitas vezes comemos sem necessidade, as crianças aprendem a entender seu corpo e sua fome, e quando possuem liberdade e ficam à vontade com os alimentos, aprendem a se alimentar sozinhos e na quantidade necessária – acredite na capacidade do seu filho!

4. Acolha a criança durante um ataque de birra e promova um ambiente seguro 

Apesar do nosso esforço constante para deixar tudo sempre em harmonia, às vezes não conseguimos fugir do ataque de birra. Assim, quando ocorre, pego o Gabriel no colo e tendo acalmá-lo (isso quando está apenas chorando). Abraço, deixo que se deite em meu ombro e chore, faço carinho…até que ele se acalme e consigamos conversar.

Uma dica muito legal que uso com ele é tornar consciente sua respiração. Vou falando baixinho pra ele se acalmar e respirar fundo, respiro junto com ele e reforço que estou ficando mais calma com isso. O intuito dessa técnica é ensinar a criança a encontrar um caminho para se acalmar sozinha! Além de promover uma melhor respiração e com isso melhorar a oxigenação no cérebro, a criança foca na técnica e desfoca do ocorrido.

Mas ainda assim, nem sempre sai tudo como planejamos. Quando o Gabriel era menor passamos por três episódios de choro com raiva que não passaram com o colo. Ele queria bater em mim, tentava bater a cabeça no chão, estava com raiva de alguma situação e não entediamos o porque daquele comportamento. Sem ter muita saída, deixamos que o ataque sessasse sozinho. Deixamos ele em cima do tapete e ficamos observando para que não se machucasse. Simples assim! Quando cansou o peguei no colo e fui acalentá-lo para então depois conversarmos.

5. Esteja preparado para o extremo 

Quando o temido ataque de birra ocorre no supermercado ou durante uma festa de amigos, mães e pais preferem enfiar suas cabeças debaixo da terra à encarar aqueles que os cercam, tamanho o constrangimento. O sentimento é de que as pessoas ao redor lhe culpam pelo péssimo pai/mãe que é, visto tamanho o escândalo da criança.

Nesse momento o que lhe resta é manter a calma em primeiro lugar! Se descontrolar só piorará a situação! Detenha o controle e leve a criança para um local mais tranquilo, abaixe-se e tente fazer com que se acalme, converse com o seu filho e entenda o ocorrido. Permaneça ali até que passe. Em hipótese alguma humilhe seu filho na frente do outro – essa não é uma opção válida, ela só reforçará sua insegurança e baixa auto estima. Lembre-se de que para manter a harmonia em suas relações é necessário respeito e empatia pelo pequeno, afinal de contas você é o adulto da relação.

Se nada resolver, esteja preparado para ir embora do local! É uma atitude extrema porém as vezes necessária. Quando chegar em casa e tudo estiver mais calmo, não deixe de conversar com o seu filho! Acolha-o e o ensine a colocar os sentimentos nas palavras, por exemplo: você ficou muito bravo porque não comprei sua comida preferida! Com o tempo e o amadurecimento ele entenderá que pode demonstrar seus sentimentos através da fala e não mais do choro ou do grito.

Uma dica válida para essas situações é: sabendo que você terá de sair para fazer algo na rua, por exemplo, e que terá de levar a criança, evite situações limites como hora do almoço, da soneca, atividades corriqueiras em que a criança se sinta entediada, etc.. tudo para evitar uma situação de crise.

Para encerrar, como em tudo na vida, não há uma única forma de tratar os acessos de birra quando ocorrem. Nem tudo que expus acima terá sucesso se aplicado em sua casa, e falo com convicção pois também não tive sucesso em tudo que tentamos por aqui. Assim, minha dica é: tente de um jeito, se não der tente de outro…até conseguir encontrar o seu caminho.

O que você não pode deixar acontecer de jeito nenhum é dar espaço para sua impaciência e agir de igual para igual com a criança…aí sim estará instalado o caos. Lembre-se você é o adulto da relação e deve ter inteligência emocional suficiente para contornar a o que está acontecendo e fazer o acolhimento.

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